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domingo, março 17, 2013

Trevas da Paixão - Rafael #3


   Não sei a quanto tempo estou a correr, só sei que não posso voltar atrás, não posso parar, porque se o fizer eles apanham-me. E eu não quero, bem o meu corpo quer, mas eu não. Não sou esse tipo de mulher, não sou Diana. Para mim é de todo impossível, uma mulher com dois homens ou duas mulheres com dois homens, no mesmo quarto! É incorrecto  escandaloso, vergonhoso! Pelo menos é o que grita a minha mente, se bem que o meu corpo diz exactamente o contrário, que decerto é bom, prazer a dobrar, uma viagem as estrelas com direito a uma dança infinita. Como pode ser que uma só pessoa, em uma determinada situação, se sinta dividida em duas com opiniões diferentes?
   Sou arrancada dos meus devaneios quando vejo a minha sombra no meio de luzes e logo de seguida um barulho, um alarme? Não, céus! Sirenes!  Quando o jipe se mete a meu lado eu paro de correr. A agente que vai de pendura olha para mim e a sua expressão seria mostra um brilho de divertimento.
   -Boa Noite! Pode-nos acompanhar? – inquire uma voz masculina e só então reparo que outro agente da autoridade, já se encontra a meu lado, com um casaco nas mãos, o casaco dele.
   Aceno com a cabeça e ele mete este sobre os meus ombros, abre a porta do jipe e ajuda-me a entrar, fechando a porta de seguida.
   Levo com o bafo quente da sofagem o que me faz recordar de novo que estou nua, bem não propriamente, mas estar de lingerie ou nua e quase igual, e completamente encharcada e sinto-me corar e muito envergonhada.
   -Por momento pensei que fosse surda ou sonâmbula. – comenta a agente – é que já estamos atrás de sim a uns quinze minutos. E quanto mais aproximava-mo-nos mais você corria.
Apesar de ter dito num tom calmo, uma pontada de gozo fez-se notar.
   -Foi atacada? – questiona o guarda, observando me pelo espelho retrovisor, abano a cabeça em sinal de negação. Por fim quando chegamos ao posto da G.N.R, sou conduzida para uma sala, os restantes guardas que se encontram de serviço olham para mim com os olhos a saltar das orbitas. Afinal de contas não deve ser todos os dias que aparecem uma mulher nua a meia da noite não é?
   -Sente-se aqui. Quer um café, chocolate quente ou chá?
   -Chocolate quente se poder ser. –digo meio rouca, amanha a gripe vai ser em grande, penso para comigo.
   -Então? Arrastaram essa de uma boate? – pergunto um homem do lado de fora da sala
   -Não! Encontra-mo-la na rua. – informa a guarda que ficou do lado de fora da sala.
   - Estou a ver, violência domestica? – insiste outro homem
   -Não me parece, não está ferida, aparentemente. – informa o guarda que foi buscar o meu chocolate quente, pelo menos a voz parecia a dele.
   -Para que tanta pergunta? Veio de alguma festa, álcool e drogas, faz-lhe o teste e verás. – diz um homem num tom rude e dou graças a deus por não ter sido apanhada por ele.
   -Não preciso que me digas como fazer o meu trabalho! – rosna o guarda, enquanto entra na sala com um copo de plástico na mão e fecha a porta com o pé.
   -Aqui tem. – põe o copo a minha frente e puxa uma cadeira para se sentar. Ajeita umas folhas e tira a tampa de uma caneta. – Bem, sabe que terei de fazer uma questões certo?
   Aceno com a cabeça e ele volta a olhar para os papeis.
   -O Seu nome?
   -Eloisa Santeira.
   -Idade?
   -25anos
   -Sabe-me dizer o que aconteceu? – fico calada, como é que devo explicar o que aconteceu? Vais achar-me maluquinha. – Eloisa, sabe que andar em lingerie na via publica é crime, não sabe? é o mesmo que andar nua. – olho para ele e aceno de novo – Disse-me que não foi atacada, foi posta na rua pelo seu namorado?  – volto a negar. Ele suspira e encosta-se a cadeira, cruzando os braços enquanto me observa. – Olhe, vou dar uns minutos para você pensar no que aconteceu, pois pode estar em choque e não se recordar bem, daqui a pouco volto para continuarmos está bem? – aceno com a cabeça e vejo que ele se levanta e dirige-se a porta, para e olha para trás – Eloisa, aconteça o que acontecer, ninguém lhe vai fazer mal. Acredite em mim. – dito isto ele sai porta fora.
   Em choque? Era dizer pouco, estava era traumatizada para o resto da vida! Como é que Diana me fez uma coisa destas?
   -Tem aqui um cobertor e uma toalha para se secar. – informa o guarda e eu dou um salto na cadeira. – Calma, desculpe, não pretendia assusta-la – dito isto sai porta fora a deitar fumo pelas ventas literalmente. Sou o tema de conversa no posto, mesmo com a porta encostada dava para ouvir. Mas ignoro tudo e dou por mim a pensar em tudo o que se passou e como vou sair desta, porque não voltei para casa? Talvez por não teres chaves? Ok, talvez para o hotel? Seria lindo chegares lá nua, excelente para seres despedida! Fico irritada comigo mesma e com a minha consciência que insiste em gozar comigo! Mais valia ter ficado deitada ou fugido para o quarto e trancar a porta!
   -Idiota!
   -Desculpe? – diz uma voz meiga, o que me levantar a cabeça e olhar para o recém chegado – Sou amigo do Felix, o agente que a trouxe para aqui, estava de passagem e ele comentou comigo o que aconteceu. – sinto-me a ferver de vergonha. – Acredito que o Idiota não seria eu, pois não? – questiona e sorri – É que se for, também não será a primeira vez que me chamam isso, mas por norma nunca é os meus clientes. Sou advogado – informa – Rafael e a menina é Eloisa, correcto? – questiona e eu aceno – Independentemente do que aconteceu, tal como o Felix disse, andar na via publica de roupa interior é crime, atentado ao pudor, logo vai precisar de um advogado. E eu posso ajuda-la. Conte-me o que aconteceu, está bem?
   -Não posso ir a casa? Tomar… - as palavras morrem na minha boca pois lembro me de que não tenho chaves.
   -Que se passa?
   -De momento não me sinto bem, não consigo lidar com isto hoje. – e começo a chorar desalmadamente. Dois braços fortes rodeiam os meus ombros num abraço apertado.
   -Shh.. calma. Está tudo bem. Espere um pouco.
   Ele solta-me e sai da sala, pouco depois regressa.
   -Venha. – Levanto-me da cadeira ainda com o casaco vestido e a manta cai no chão.
   -Onde vamos?
   -Comer alguma coisa, tomar um banho quente e descansar. – sorri o que o faz parecer um menino traquinas e que por sinal me deixa mais calma.

***

sexta-feira, março 08, 2013

Trevas da Paixão - Rafael #2

Acordo meio zonza e confusa, olho em volta para tentar perceber a onde estou e aos poucos começo a reconhecer o quarto, a onde me encontro. Sorrio para mim mesma. Levanto-me para ir ter com Diana e pedir desculpas por ter bebido demais, quando noto que estou apenas de roupa interior, olho em volta para procurar um roupão, mas nada. Pensando bem, somos mulheres e se ela me despiu, não deve ficar muito chateada se eu andar assim por casa, alias a culpa é dela, quem lhe manda não deixar nada para eu vestir?
     Por momentos vejo tudo andar a roda e sou obrigada a agarrar-me a maçaneta da porta, pouco depois, já me sinto melhor , abro a porta e caminho até ao quarto de Diana, as pequenas luzes de presença iluminam um pouco o corredor, anulando a escuridão da noite. Quando chego por fim ao quarto de Diana, noto que a porta está entreaberta, encosto a mao a porta para a abrir quando oiço pequenos gemidos, seguidos de outros dois. Por momentos sinto-me confusa, depois a curiosidade, empurro a porta de uma vez e para meu espanto Diana está no centro da cama de joelhos com Ruben por trás e Nelson na frente, fico petrificada com aquela imagem e oiço um grito, um de horror, olho para Diana pensando que seria dela, mas para meu espanto eles observam-me e no fim o grito que ouvi era meu.
     -Eloisa… - Diana levanta as mãos, como que se rende-se e aos poucos levanta-se da cama andando na minha direção. – Posso-te explicar.
     -Não… - balbulco e dou dois passos para trás, Nelson e Riben, levantam-se também e cada um mete-se ao lado de Diana. Olho para eles de alto a baixo, completamente nús e de “tendas montadas”, e que tendas, bem grandes por sinal, dou uma chapada mental a mim mesma e volto a olhar para Diana que e sorri enquanto estende a mão a espera que eu me junte a ela.
Tudo bem que é a minha amiga, e que eu a estive com homens, se bem que um de cada vez e depois nós mantinha-mos uma relação. Não assim, não com desconhecidos e ainda por cima com dois. Sinto-me cada vez mais nervosa, pois eles estão cada vez mais perto de mim, quando Nelson acaricia o meu rosto, o terror invade-me, tal como mil imagens deveras quentes e porcas, que deixam as minhas pernas bambas e o meu centro a palpitar.
     -Não… - sussurro e por momento penso se este não, não terá sido só na minha mente. Inspiro fundo e tento juntar um pouco mais de determinação nas minhas palavras, forçando elas a sair, mas esta desparece, se e que alguma vez aqui esteve. Quando sinto os lábios dele a beijarem-me, traiçoeiro como só o meu corpo sabe ser, tomo consciência de que me esfrego contra ele, incentivando-o a mais. Horrorizada comigo mesma, empurro-o apanhando ele desprevenido e fujo para fora dali.
     Oiço Diana a gritar por mim, mas nem isso me detém, a sensação de estar num sonho é tão grande que quando mais corro para chegar a porta, mais ela parece que se afasta. Por fim chego a ela e abro-a, o vento e a chuva molha o meu rosto, faz-me lembrar de que estou de lingerie, paro e viro-me para trás a onde três pares  de olhos me observam.
     -Eloisa, calma, ninguém te vai tocar. – diz Diana no tom meigo com se estivesse a falar com um animal ferido, olho para os restantes e vejo que Ruben sorri com pura malicia mas o que me assusta é o olhar de Nelson, que me observa, os olhos dele mostra que o que se passou para ele ainda não terminou. Estava sim prestes a começar!
     Sem pensar duas vezes, viro-me para a porta e desato a correr.

***

sexta-feira, março 01, 2013

As Trevas da Paixão - Rafael



Sim, eu sei, já pensei em escrever um livro sobre as barbaridades que me têm acontecido nos últimos tempos. Inclusive, até já pensei num título: “Como ser encornada três vezes consecutivas?”
- Melhor, muito provavelmente devo conseguir entrar para o Guinness! – Falo sozinha, como as velhas senis, ao mesmo tempo que suspiro e observo tudo à minha volta. A ideia de ir a uma discoteca pareceu-me apelativa, afinal há que seguir em frente, não é? Mas neste momento, estar sentada a um canto não me parece de todo divertido. Escusado será dizer que Diana anda algures no meio da pista a dançar, sabe-se lá com quem… e pensando no diabo, assim que reparo melhor vejo a minha amiga a caminhar na minha direcção e acompanhada. E adivinhem lá? Não trás um, mas dois gajos com ela. Altos e musculados.
Sinceramente? Aqui para nós? Aqueles tipos emanam, transpiram e respiram sexo. Daquele forte e feio, bem selvagem. Constatação essa que não me devia surpreender, afinal estamos a falar da Diana.
- Ainda aqui sentada? – Pergunta Diana, com o sobrolho franzido.
- Nop, Estou ali na pista a curtir ao máximo. – a minha resposta a transbordar de ironia foi acompanhada pelo meu dedo indicador. Dedo esse que Diana começou por seguir, antes de perceber a piada.
- Por favor, Eloisa! Não me digas que estás a pensar naquele traste?
- Não. Apenas não estou com espírito para a coisa. – Resmunguei.
- Podemos dar uma ajudinha… - insinua um dos tipos, enquanto o outro sorri. Tinha uns dentes perfeitos.
- Não me parece que possa ajudar. – A minha resposta azeda e o meu sorriso amarelo-torrado foi a melhor alternativa para não lhe cuspir as palavras. Mas quem este pensa que é?
- Não pretendia ofende-la. Queria apenas que se divertisse. Tem uns olhos lindos, mas aposto que ficam ainda mais lindos, se essa tristeza desaparecer.
Uau! Porque raio é que eu agora me sinto mal?
- Pois… eu, ah… Olha, desculpa. – Apresso-me a dar uma justificação, que só faz com que o meu ar de idiota fique mais acentuado. – Desculpem, mas hoje não é de todo o meu dia. – Vou buscar um sorriso velho e em segunda mão ao fundo da minha alma e tento que ele se agarre aos meus lábios. No entanto, não consigo mais que mostrar uma cara de quem andou a chupar um limão.
- A menina permite-me que lhe traga uma bebida? – Pergunta o tipo número dois que até ao momento se tinha mantido calado. – Uma água? Um sumo?
Água? Sumo? Deves estar a brincar! Mas ele pensa o quê? Que eu sou uma criança?Ainda no meu monologo cerebral, dou comigo a sentir a temperatura corporal a subir e aviso-vos desde já que não é febre de gripe. É febre de raiva por todos os homens com quem me cruzo não serem capazes de dizer uma única coisa acertada. Mas eu até já sabia como lhe mostrar que aqui a criancinha não só já conduzia, como também sabia beber bebidas alcoólicas.
- Agradecia um Whisky-cola.
Nesse instante, torno-me no centro das atenções e só me faltam os holofotes a cegar-me para o momento ficar perfeito. Diana e os tipos numero um e numero dois observam-me surpresos, o que acaba por me arrancar um sorriso. Diana senta-se junto de mim enquanto os rapazes vão ao bar buscar as bebidas.
- Hummm, parece que estás a animar.
- Um pouco. – Disse-lhe, ao mesmo tempo que encolhia os ombros. – Pode ser que com um copito fique melhor.
- Esta sim, é a minha menina! – Disse Diana, ao mesmo tempo que partilhava as palavras com um sorriso rasgado e satisfeito.
Na verdade, satisfeita demais para o meu gosto. Conhecendo Diana como conheço, depois de algum tempo perguntei como quem não quer a coisa:
- Então, onde é que os foste desencantar? – Inclino a cabeça na direcção do bar. – Pensei que preferisses coisas… bem… frias e caladas?
- E estes são bem quentes, hã? – Diana pareceu-me por momentos uma bonita e matreira raposa, com aquele brilho especial nos olhos e sorriso rasgado que só quer dizer uma coisa: SARILHOS!
O meu alarme interno dispara e começo a sentir-me estupidamente nervosa mas depois de uns segundos de verdadeira reflexão chego à conclusão que quem está sentada ao meu lado é a minha melhor amiga, a minha irmã por afinidade e ela nunca, em momento algum me magoaria.
Assim que um brilho âmbar cintila diante dos meus olhos sou arrancada aos meus devaneios. Levanto os olhos do copo e vejo o tipo número dois a olhar para mim e a sorrir.
Sabem aquela expressão de ‘comer com os olhos’? Pois bem, eu senti-me comida… melhor ainda, devorada de uma vez só. Ainda embaraçada com o comportamento dele que não faz jus, de todo, à expressão que vos falei há segundos, acabo por lhe devolver um meio sorriso forçado.
- O-obrigada. – Gaguejo devido aos nervos e acabo por me pontapear a mim própria mentalmente. Detesto quando isto me acontece.
- De nada, estrela. – O tipo número dois senta-se ao meu lado ao mesmo tempo que lanço um olhar enviesado à minha melhor amiga.
- Oh, desgraça! – Assusto-me com a mudança de comportamento e sigo-a com o olhar. O que é que esta doida vai fazer agora?- Não vos apresentei! Eloisa apresento-te o Nelson e o Ruben -  o tipo número um e número dois sucessivamente – Meninos esta é a minha amiga que vos falei a Eloisa.
Desta vez o bip-bip sonoro do meu alarme interior foi substituído por uma sirene do INEM! Ela falou com eles sobre mim? Não, só pode ser uma brincadeira. A Diana adora brincar com o fogo e por vezes queima-se e quer-me parecer que desta vez as queimaduras vão ultrapassar as de terceiro grau. Controla-te Eloisa! O mais provável foi ela ter comentado que estava contigo. Um comentário simples e pontual. Uma constatação de um facto. Nada de dramas. Ok. A minha consciência tinha razão, estava a dramatizar.
Depois de controlar os meus monólogos cerebrais e de ter garantias de que as minhas mãos não se colavam ao pescoço de Diana, reparo que um par de olhos está fixo em Mim. Ruben. Devolvo-lhe o olhar que transmitia um ‘o que foi’ e apercebo-me que tinha deixado transparecer todas as duvidas e todo o pânico que tinha tomado conta de mim naqueles segundos.
Recordando-me das etiquetas e da minha boa educação, estendo uma mão para um cumprimento:
- Prazer. – Ok. Agora sim, sinto as minhas bochechas a arder. Prazer? Céus… Cheira-me que a noite vai ser uma desgraça completa.
- Todo meu, estrela!
A voz dele embateu no meu corpo e propagou-se como uma réplica de um sismo. Eu, completamente paralisada, apenas consigo olhar para o dono daquela voz rouca e sedutora enquanto ele se aproxima um pouco mais. E mais um pouco ainda. A mão dele toca na minha coxa de forma propositada e eu acabo por suster a respiração enquanto o vejo avançar um pouco mais.
Uma vez accionado o meu piloto automático, pego na minha bebida e de um trago esvazio o copo e arranco uma gargalhada estridente a Diana que só lhe faltou rebolar no chão.


sábado, fevereiro 23, 2013

As Trevas da Paixão - Gil # 10




Nesta altura da minha história, muitos de vocês já devem ter perguntado como é que uma rapariga como eu consegue ter tanto azar. Pois é, meus queridos, nem eu vos sei responder. Só sei que fiquei sem palavras quando entrei no maldito vestiário e vi o meu homem entalado entre duas mulheres…
Uma atrás dele, a beijar-lhe as costas e a outra, a que estava diante dele, a dar-lhe um dos seus mamilos a provar, fitou-me o olhar aterrorizado e brindou-me com o seu melhor sorriso.
                Diana tinha razão, Matilde era uma vaca sem sal e a prova estava ali diante dos meus olhos, dentro da sala onde me tinha entregue aquele homem, na esperança de vir a ter uma família, filhos… etc, etc, etc…
                Não rompi em histerias, nem tão pouco falei. Simplesmente voltei costas e desci às urgências, onde a minha amiga, a única pessoa que nunca me trairia aguardava-me.
                As lágrimas não vieram, a raiva desapareceu e eu foquei toda a minha força, toda a minha atenção na minha amiga, que no espaço de tempo em que eu recebia a minha terceira estalada amorosa tinha recuperado a consciência e estava tão desnorteada quanto eu. Mas eu tinha que cuidar dela, para que depois, quando a tempestade de nome traição se abatesse sobre mim, ela tivesse força suficiente para me amparar e recuperar os cacos perdidos do meu coração.
                Quando a médica das urgências deu alta medica a Diana, apressei-me a chamar um táxi para nos levar a casa. A casa dela, já que não me atrevia a ficar sozinha pois sabia que quando o fizesse, quando não tivesse nada com que me entreter e manter-me ocupada, o sabor da traição envolver-me e destronar-me-ia, sem dó em piedade. Diana perguntou-me o que eu tinha, visto estar com um aspecto piro que o dela, e eu, cobarde, usei a desculpa da intoxicação para me livra de um interrogatório. No entanto, mesmo tendo passado por um ma bocado, ela sabia que lhe estava a mentir.
                - Algo de grave se passa e podes esquecer o maldito Sushi como resposta. – disse ela enquanto se aconchegava num dos lados da cama – Mas amanha, não me escapas. Quero saber o que aconteceu.
                Eu engoli em seco e anui com a cabeça. Não valia a pena tocar naquela merda de assunto aquela hora da noite.
                Não consegui pregar olho e só consegui pensar na espécie de pessoa que eu devia ter sido numa outra vida porque só podia ser mesmo uma pessoa terrível, para levar cm um azar daqueles. Aquilo não era normal. Três relações falhadas. Três traições. Três desgostos, um a seguir ao outro. Um pior que o outro.Não, alguma coisa não estava bem. Alguma coisa não batia certo. Era bruxedo. Tinham-lhe rogado um feitiço, uma praga qualquer coisa. Só podia. Ninguém tinha tanto azar.
                Diana mexeu-se na cama e quando dei conta, tinha aqueles enormes olhos castanhos presos em mim.
                - Já acordada? – perguntei, atrapalhada, a limpar as lágrimas que finalmente me brindavam com a sua presença.
                - Vais dizer-me o que se passa e é agora. Vá, Eloisa, o que foi, conta-me. Sem rodeios! – exigiu a minha amiga, com cara de sono, olheiras profundas, maquilhagem por remover e cabelo despenteado.
                Não aguentei e entre fungadelas e soluços choros contei-lhe a cena sexual com que Gil me brindara na madrugada passada, quando mais eu precisava dele. Mas o piro foi quando toquei no nome da Matilde. Diana explodiu, e se até à data detestava a miúda, agora odiava-a de morte.
                Quando parei de chorar e me recompus, também Diana estava mais calma. Peguei nas minhas coisas quando o táxi chegou.
                - Promete que não lhe vais fazer nada? – pedi.
                - Não percebo… - Diana rangeu os dentes indignada.
                - Eles não merecem que,…
             - Não amiga, quem não merece és tu. – Di, bufou exasperada – Mas ok. Não vou à procura dela…
                Beijei Diana no rosto, pedi-lhe que descansasse e regressei a minha casa.

                Não posso dizer que foi fácil, ultrapassar o choque. Mas também não foi difícil, nem foi de ficar a querer morrer no sofá. Segui a minha vida. Levantei a minha cabeça e avancei com a minha vida. De que me adiantava ficar a chorar no sofá? De nada para além de ganhar uma dor de cabeça e ficar com os olhos tão inchados como se eles me fossem saltar da cara. Não, já lá tinha ido o tempo em que isso acontecia.
                Dediquei-me ao trabalho e foi precisamente numa das minhas tardes de trabalho, que Gil apareceu por lá. Não me engasguei por muito pouco. Ele pediu para falar comigo e eu cedi. Não porque quisesse falar com ele, mas porque não queria escândalos no meu local de trabalho.
                Sentámos numa mesa do bar e ele sorriu-me. Bandido. Apetecia-me bater-lhe!
                - 'Tás bem. Quero dizer, pareces-me bem!
Eu ri-me, de uma forma totalmente descontrolada. Quando recuperei, tinha-o a olhar para mim de boca aberta.
                - O que foi, meu querido? – disse com sarcasmo – Achavas o quê? Que ia ficar em casa, trancada, a chorar por ti? Desculpa amor, mas essa fase já passou. E se era isso que querias, lamento, mas estás a perder o teu tempo…
Levantei-me e preparei-me para me afastar da mesa, quando ele me agarrou o braço.
                - Espera. Não foi isso… é que… Bolas, devo-te um pedido de desculpa. – disse ele – A sério. Não foi por mal.
                - O quê? Não foi por mal? Mas estás a brincar comigo?!
                - Deixa-me explicar. Por favor, ouve-me… Eu… Eu… Caraças, Eloisa… eu tenho um problema. – confessou.
                - Ah sim, tens um problema? Azar, meu querido, resolve-o. Deixou der ser um problema meu.
                - Eu não consigo resistir às mulheres. Eu amo-te Eloisa, mas não consigo passar só contigo. – disse ele.
                - Bom, como disse, azar o teu. Deixou de me dizer respeito. Passa bem, Gil.
                Rodei os calcanhares e avancei pelo pátio quando o voltei a ouvir:
                - Se assim é, porque deste uma tareia na Matilde?
Rodei sobre mim mesma, completamente perplexa.
                - Eu o quê? Eu fiz o quê?
Ele levantou-se e veio na minha direcção. Enfiou as mãos nos bolsos e olhou-me com uma espécie de brilho orgulhoso nos olhos.
                - Ela chegou ao hospital com a cara toda vermelha. Arranhada no pescoço, nos braços, por todo o lado. Um olho negro. Não foste tu?
A minha perplexidade falou por mim.
                - Não foste tu. – constatou ao fim de uns segundos.
                - Claro que não fui eu. – disse-lhe quase chateada – Mas já desconfio quem foi.
                Gil acenou com a cabeça e teve a decência de sair do meu local de trabalho sem me dirigir mais nenhuma palavra. Eu, por minha vez, senti-me triunfante. Não tinha descido ao nível dele, tinha conseguido controlar-me e dei por mim a sorrir, para logo de seguida cerrar os olhos e correr em busca do meu telemóvel. Diana devia-me uma explicação.
                - Tu prometes-te. – Disse-lhe, à laia de cumprimento.
                - Eu prometi que não a procurava. Não o fiz. – Disse ela, como se me estivesse a dizer que o sol é amarelo. – Mas não te prometi que me conteria caso ela se atravessasse no meu caminho.
                - Diana, podes vir a ter problemas. Não vale a pena. – Ralhei. Ela era maluca e um dia ainda pagava caro por isso.
                - Não me importa. Quem se mete com os meus, mete-se comigo. Além disso, deu-me um gozo enorme, poder arranhar aquela cara sonsa.
                - És doida… Mas adoro-te. És uma boa amiga, sabias? – Disse, a tentar controlar as lágrimas.

***



sexta-feira, fevereiro 15, 2013

As Trevas da Paixão - Gil # 9

 
Rimos. Choramos de riso. E quase, por muito pouco, não nos mijamos a rir. Sim, é o que dá ter um jantar com a melhor amiga. Há medida que o jantar foi fluindo, Gil foi mandando mensagens, perguntando como estava a correr e dizendo-me como estava correr o trabalho dele. Felizmente era uma noite calma.
                Diana ia-me contando as suas últimas experiências no que, a encontros dizia respeito e eu ia-lhe fazendo uma ou outra confidência que, lhe arrancava aquelas gargalhadas contagiantes e que punha os olhos todos do restaurante pregados em nós as duas, sentadas numa mesa discreta a meio do restaurante. Bom, seria discreta caso Diana se risse de uma forma normal e contida, mas a minha amiga era assim, espontânea ao expoente máximo. O que podíamos fazer, se não aproveitar a situação?
                Depois de horas a comer Sushi, a brincar com os pauzinhos e a beber saquêque nem umas malucas, acabamos por pagar a conta e sair para apanharmos um táxi até à nossa próxima paragem: um bar acolhedor perto do centro histórico.
                Quando lá chegamos a música ambiente condizia com o nosso estado de espírito alegre e bem-disposto. Deixamos os casacos e fomos ao bar buscar as nossas bebidas. Dançamos um pouco. Bebemos. Voltamos a dançar, conversamos e foi aqui que a noite começou a descambar. Diana sentou-se num dos sofás e começou a esfregar a testa, como se estive mal disposta. E estava, dizia-me que não se estava a sentir bem e pediu que a acompanhasse ao WC.
Estava pálida, mais branca que as loiças dos lavabos.
                - Estás bem amiga? Oh meu Deus, estás tão pálida! – disse-lhe, enquanto lhe passava a mão pelo braço.
                - Isto já passa… deve ter sido da bebida… - disse ela, enquanto se dirigia a uma das cabines com sanita, baixava a tampa e se sentava lá um pouco.
                - Queres uma garrafa de água? – Diana fez que sim e eu corri para o bar. Quando regressei, ouvia os puxos dos vómitos da minha amiga. Apressei-me a segurar-lhe a cabeça e o cabelo, ajudando-a a equilibrar-se nos saltos.
                - 'Miga… não estou bem. Não me sinto nada bem.
                - Eu sei, querida, já reparei. Assim que tiveres força, chamo um táxi e vamos embora.
                - Sabes, não me sinto mesmo nada bem.
Foram as últimas palavras de Diana, porque a seguir apagou. Desmaiou-me nos braços e ficamos as duas entaladas na cabine da casa de banho.
                Comecei a gritar por ajuda e por sorte, alguém que tinha ido à casa de banho naquele instante não fugiu a sete pés pensando que era uma brincadeira mas foi buscar ajuda. Chamaram a ambulância porque Diana não recuperava os sentidos e eu fui com ela para o hospital.
                Fiquei uma eternidade de tempo na sala de espera, à espera que alguém me dissesse alguma coisa. Ninguém vinha com notícias. Mandei mensagem ao Gil, avisa-lo que estava no hospital devido à situação e nada. Nem uma palavra dele. Estava já a desesperar quando uma médica, com cabelos brancos e um olhar meio louco me perguntou se era acompanhante de Diana. Disse-lhe que sim e depois de me informar que ela tinha desmaiado devido a uma violenta intoxicação derivado ao Sushi, que lhe tinham lavado o estômago e que ela se encontrava a descansar e que ia ficar bem, dei por mim a cair na cadeira desamparada. Bolas, podia ter acontecido às duas. E com isto não se brinca.
Assim que a doutora saiu e eu me recompus. Não é fácil lidar com a fase seguinte de um estado de adrenalina intenso, dei por mim a passar os corredores em direcção aos elevadores.
                Queria o Gil. Precisava de estar com ele. Precisava de o ver. Já que não me deixavam ver a Diana, talvez com ele pudesse lá ir só para lhe afagar o cabelo e ver que estava realmente bem. Além disso, precisava de consolo. Precisava do consolo do meu homem.
                A viagem de elevador demorou séculos e quando as portas se abriram, voltei a sentir um baque profundo no peito. Uma batida falhada. Um mau pressentimento, se quiserem.
Segui pelo corredor em direcção ao balcão principal da pediatria onde uma enfermeira de serviço me indicou que o Dr. Gil estava na sua pausa no vestiário.
                Agradeci à senhora ainda que por dentro sentisse o coração gelar. Então se estava na pausa, porque não me tinha dito nada? Avancei determinada até a porta do vestiário, sala que eu tão bem conhecia. Aproximei a mão da maçaneta e quando me preparava para abrir a porta, ouvi uma espécie de gemido. E depois outro e outro. Dois gemidos diferentes. E quando me afastei porque de certeza que me tinha enganado, ouvi um terceiro gemido, só que enquanto que os outros me afastaram da porta, aquele fez-me dar um passo em frente e apurar os sentidos.
                Uma raiva crescente tomou conta de mim. Do meu corpo. Do meu discernimento. E antes que a raiva me cegasse, abri a porta de rompante e apanhei o maior choque da minha vida até há data...

sexta-feira, fevereiro 08, 2013

As Trevas da Paixão - Gil # 8

Não faço ideia se existe vida para além da morte. Se existe inferno e paraíso. Mas se existir, gostaria muito que me fizesse sentir como me tenho sentido nos últimos dias, porque sinto-me como se o paraíso tivesse descido à terra e me tivesse dado um free passe. A vida com Gil era assim mesmo, um verdadeiro paraíso. Ele tinha adaptado o seu turno ao meu. Trabalhávamos mais ou menos nos mesmos horários. Tínhamos as folgas em modo compatível e a vida sorria.
Mais ou menos. Por passar demasiado tempo com Gil, tinha deixado de estar tanto tempo com Diana, que para seu azar, tinha entrado numa maré de poucos funerais. Sim, também na indústria dos mortos havia picos. Ora morria gente às carradas, ora não havia ninguém para morrer. Nem mesmo a tia Micas de noventa e nove anos que continuava a beber o seu bagaço todas as manhãs dava sinal de fraqueza.
                Mas Diana, ainda que ficasse um pouco triste e deprimente, nunca me permitia que fosse ter com ela, quando sabia que tinha combinado alguma coisa com Gil. Ainda assim sentia-me culpada por não dar mais tempo e atenção à minha melhor amiga.
                E então surgiu-me uma ideia, Gil tinha-me dito que muito provavelmente estaria a trabalhar a próxima noite, porque devia um favor a um colega que tinha aniversário de casamento e não podia faltar nem que chovessem pêssegos. Sim, estes tipos de datas são importantes. Devem ser comemoradas. No entanto, tínhamos combinado ir comer Sushi e ele não queria desmarcar, com medo que eu ficasse chateada e porque também já tinha feito a reserva e, uma vez que tinha reservado um prato especifico, perderia a caução se cancelasse.
                Liguei ao Gil e expus-lhe a minha ideia. Ele concordou e ficou feliz por lhe ter resolvido o assunto. Estava decidido, eu e Diana íamos ter uma girls night com direito a jantar num dos melhores restaurantes de Sushi da cidade, cortesia do meu doutor. Segundo ele, um jantar para matar saudades da minha amiga.
                Diana explodiu em risinhos e gargalhadas quando soube o que tínhamos pela frente. Ela delirou com a ideia e deixou-me muito contente. Finalmente a minha vida corria sobre rodas.
                Gil era um homem como poucos. Tratava-me como uma verdadeira princesa. Contado ninguém acreditava. Era um verdadeiro achado, o meu doutor.
                Claro que era vítima da inveja alheia. Principalmente e maioritariamente feminina. Principalmente se a pessoa em questão fosse Matilde, que desde que soubera que eu e Gil andávamos me deixou de falar e passou a agir como se eu a tivesse traído. Olhava-me com frieza e quase a podia ver mudar de cor quando por algum motivo nos encontrávamos por acaso nos elevadores do hospital. Edifício que passei a frequentar mais do que alguma vez esperaria, porque é o que acontece quando se namora um médico.
                Podem não acreditar, mas uma vez, calhou de nos encontrarmos dentro do elevador. Senti que ela me queria dizer alguma coisa. Alguma coisa má, se é que me entendem. No entanto, Matilde saiu do elevador com um olhar gelado e um sorriso mau nos lábios, como se soubesse um segredo que merecia ser revelado e que não o fazia se não por maldade.
Afinal Diana tinha uma vez mais razão, ela era mesmo uma insossa que não conseguia viver com a felicidade dos outros.
                Maus pensamentos de parte, comecei a preparar-me para o jantarinho com a minha melhor amiga. Somos diferentes como a agua e o vinho e no entanto é como se fosse impossível viver sem ela.
Suponho que uma verdadeira amizade seja isto mesmo. Pelo menos para mim, é de certeza.
                Diana encarregou-se de chamar o táxi e de me vir buscar a casa. Segundo ela, se era uma noite de mulheres tinha que ter álcool, e se tinha álcool, não podíamos conduzir. Além disso os táxis funcionavam muito bem numa noite destas. Não que tencionássemos beber até entrar em coma, mas era sempre bom precaver.
                Diana estava linda. E eu também modéstia à parte. A relação com Gil fazia-me bem. Diana tinha um vestido com algumas transparências de cor preto, que lhe caiam como uma luva em cima das suas curvas. O cabelo apanhado num gancho dourado davam-lhe um glamour de estrela de cinema. Já para não falar nos seus sempre fieis saltos agulha que deixavam qualquer um de rastos. Eu tinha optado por uma blusa, toda transparente, com um enorme laço na fronte, uma saia de cinta subida, muito esbelta, que me dava pelos joelhos e claro está, uns botins de salto alto a condizer. Estávamos as duas demasiado chiques para ir comer peixe cru com pauzinhos mas vá, era uma noite especial.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

As Trevas da Paixão - Gil 7 #


Diana tinha passado pelo hotel perto das quatro da manha. Vinha enfiada dentro de uma saia de cabedal preta e uma jaqueta do mesmo material. O cabelo ondulava-lhe nas costas e era impossível não a ver. Penso que um dos motivos por ela ter escolhido trabalhar com mortos em vez de vivos, era também devido à forte tensão sexual que emanava dela. Era-lhe tão natural que no início foi-me difícil, ainda que me considere heterossexual assumidíssima, ficar imune ao seu charme intrínseco. A minha sorte, foi que às quatro horas da madrugada, muito dificilmente aparece alguém pela recepção e assim a minha querida amiga não causaria um chelique sexual a ninguém e não me meteria em despesas.
Conversamos durante horas sobre Gil. As gargalhadas contagiantes dela vibravam nas paredes da recepção, obrigando-me a encolher de cada vez que o seu riso se fazia ouvir.
Soube-me bem conversar com ela e desabafar sobre tudo o que tinha acontecido nos últimos dias.
Diana defendia que o que era passado ficava no passado e achava muito bem que eu seguisse com o Dr. Gil., porque só com um novo amor, poderia esquecer um mau. Não que considerasse aquilo que senti por Santiago um amor de perdição, mas bolas, sai magoada do que tinha acontecido entre mim e ele e não fora só o coração partido. Também tinha levado com uma factura no pulso mas… na verdade, há males que trazem um bem. E o meu pulso partido trouxe-me um pediatra.
E por falar em pediatra, ainda Diana não se tinha ido embora, quando o meu telemóvel começou a vibrar em cima do balcão da recepção. Como que antevendo o que me esperava, o meu coração saltou-me no peito, fazendo-me ceder os joelhos e pôr-me as mãos a tremer. A mensagem era do Gil, que, tal como eu, estava no turno da noite e decidiu convidar-me para tomar o pequeno-almoço quando ambos saíssemos do trabalho. A resposta à pergunta dele foi óbvia: na minha casa, ou na tua? E confesso que não estava à espera que ele se oferecesse para que fosse na dele.
Desde a recepção da mensagem, até à hora de sair do hotel para tomar o tão aguardado pequeno-almoço devo dizer-vos que me pareceu que o tempo congelou. Dizer que os minutos passavam a passo de caracol era ser simpática. Senti-me adolescente outra vez.

Gil, um verdadeiro cavalheiro, seguiu no seu carro atrás do meu, porque fez questão que deixasse o meu carro em casa. Depois de entrar no dele, seguimos em direcção ao seu apartamento, numa zona habitacional muito simpática perto da universidade. Uma zona familiar.
Família. Filhos. Marido. Mulher…. Descendência…
Pronto, era oficial, o tema estava a tornar-se obsessivo. Qualquer coisa que envolvesse a palavra família, levava-me a pensar logo em matrimónio e maternidade. Bolas, tinha mesmo mexido comigo!
                A casa dele era minimalista e muito masculina. Sem grandes adereços, mobiliário simples e moderno, mas com um espaço muito acolhedor e melhor, muito melhor que a mobília de design moderno, era o facto de ter a casa arrumada. Um brinco.
Okay, eu acuso-me, a minha muito raramente se encontra naquele grau imaculado de limpeza e arrumação. Principalmente o quarto.
Gil riu-se, como que adivinhando os meus pensamentos.
                - Achavas o quê, que te tinha convidado porque queria que me arrumasses a roupa suja e me aspirasses a casa?
                - Sim. Quero dizer, não, claro que não. – mais uma vez fiquei vermelha como um maldito tomate – Vamos ser realistas, normalmente os homens que vivem sozinhos não têm a casa arrumada, é mais forte que vocês.
                - Hum, uma generalista! – disse ele, enquanto me piscava o olho e pendurava o casaco dele e o meu no bengaleiro – Gosto de provar os meus pontos de vista, em especial, mostrar que estás errada em relação a todos os homens serem iguais. Mas, por ora vamos comer, estou esfomeado!
                Eu soltei uma leve gargalhada, dizendo-lhe com risos que estava ansiosa que me mostrasse o ponto de vista dela.
Se a minha querida amiga Diana me ouvisse a ter este tipo de pensamentos diria que estou curada e que agora sim ia conseguir tirar o máximo partido do sexo oposto, porque segundo ela, era exactamente para isso que eles serviam, para nos dar tudo o que precisássemos.
                O magnifico Dr. Gil, não só tinha a casa impecavelmente arrumada, como também cozinhava divinamente.
                - És uma caixinha de surpresas, não és? – disse eu, enquanto me deixava servir de uma caneca de café acabado de fazer, com um pingo de leite. E me deliciava com os crepes que ele preparava na hora e colocava na mesa.
                - Podemos dizer que tenho de tudo no meu baú. Se quiseres, mais tarde, posso mostrar-te o que mais podes encontrar.
Gil pegou na minha mão, que segurava o meu garfo, e levou o meu pedaço de crepe com chocolate à sua boca, sem nunca parar de me olhar. Olhos nos olhos. Alma na alma.
Oh. Meu. Deus.
                - Claro… porque não… - acabei eu por dizer, ao mesmo tempo que os lábios dele, deslizavam pelo meu garfo.
O resto do pequeno-almoço correu às mil maravilhas, sem grandes afluências de calor nem temas com duplo sentido.
Quando terminamos, ajudei o Gil a levantar a mesa do pequeno-almoço e antes mesmo de conseguiu pousar os pratos no lava-loiça, já as mãos dele tinham saltado para as minhas ancas, maneando-as, puxando-me contra ele. Os talheres, que aterraram rápido demais no lava-loiça, sobressaltou-me um pouco o que apenas fez com que eu e ele ficássemos ainda mais juntos.
Ele afastou o meu cabelo da nuca e beijou-me demoradamente, provocando-me arrepios em toda a superfície do meu corpo coberta de pele e pêlos. Depois, beijou-me a orelha e mordeu-ma. Por fim, voltou-me nos seus braços e beijou-me como poucas vezes fui beijada.
                Gil era magnífico com as suas mãos. Mãos másculas e experientes que em menos de nada, me tiraram as calças e a camisa branca da farda do hotel e me deixaram apenas de roupa interior, deitada na sua cama.
                Beijou-me os pés, as canelas e os joelhos. Segurou-me as coxas, beijou-me as ancas e tirou-me as cuecas. Quando dei por mim, gemia e gritava de prazer às mãos dele. Um calor delicioso banhava-me, envolvia-me e possuía-me sem qualquer tipo de complexo, e quando ele me agarrou forte nas coxas e gemeu o meu nome, soube que ele tinha acabado de atingir o meu paraíso carnal, e o orgasmo de ambos levou-nos a deixar-nos ficar lado a lado na cama, respirando apressadamente, deixando que o sono reclamasse o que era seu por direito.
Quando dei por mim, estava oficialmente em terra de vale dos lençóis.

sexta-feira, janeiro 25, 2013

As Trevas da Paixão - Gil #6

Revirei os olhos e fitei o ecrã do telemóvel, ainda descrente na mensagem que tinha recebido. Carreguei na tecla verde do telemóvel e pus a chamar.
                - Eu sei. Eu sei. Fiz asneira. – disse Diana do outro lado da linha sem sequer me  cumprimentar. – Mas não dá mesmo querida.
                - És sempre a mesma! – resmunguei – Preciso de falar contigo. Preciso desabafar contigo. Vou ficar doida se não falar contigo…
                - Oh, meu amor, eu sei… mas não dá mesmo. Tu sabes! – choramingou Diana.
                - Ohhhh, olha que nem sabes o que perdes! – contra ataquei  em minha defesa, com um exagerado deleite na voz.
                - Não, não faças isso! Peço-te! – Implorou Diana.
                - Oh, mas faço. Eu e ele… - troquei o telemóvel de orelha - Ele e eu…
                - Cabra… - disse ela entre dentes, serrados. – és mesmo má! Ouviste?
                - Não, tu é que és! Bolas Diana, eu estou viva, o teu amiguinho está morto e ainda assim, desmarcas-te o nosso café.
                - Amiguinha.
                - O quê?
                - Amiguinha morta. É uma ela. – justificou a minha amiga serenamente.
                - A sério, tu não és nada normal. – disse eu entre risos.
                - E então, o que aconteceu? – perguntou ela, guloso por saber mais detalhes.
                - Estás de castigo. Não te vou contar pelo telefone.
                - És mesmo muito má! Devias ter vergonha. Isso não se faz.
                - Também te adoro Di. – disse.
                - Sim, eu também…. Mas vais paga-las. Quando terminar passo pela tua casa. Nem que estejas a dormir, vais ter que me contar!
                - Estou a trabalhar! – disse eu a rir.
                - Oh, a sério? Melhor ainda, passo no hotel para falarmos.
                - Diana, vou estar a trabalhar…
                - Até logo meu amor… - disse ela, para desligar o telefone logo de seguida.
                Ri-me como uma tola, sabendo que Diana cumpriria a sua palavra, a menos que aparecesse mais algum morto a precisar de ser despachado, preparado e aprumado.
                E enquanto não chegava a hora de entrar ao trabalho, dediquei-me à separação e triagem das roupas velhas que tinha dentro do roupeiro.
 
Bolas! O saco de roupa que saiu do meu armário, directamente para o contentor de recolha para os mais carenciados pesava como se fosse cimento. Sou sincera, só tirei a roupa que já não usava há mais de um ano, pelo menos, mas ainda assim, o saco era daqueles pretos enormes e vinha cheiinho até à rolha. E eu que pensava que afinal até não gastava muito dinheiro em roupa… Mas pelo menos as minhas roupas usadas, em muito bom estado na sua grande maioria, vão fazer jeito a alguém.
Deliciada com a minha atitude, e com muito bom humor, regressei a casa nas calmas. Os meus pensamentos oscilavam entre os meus pesadelos passados, que ainda me causavam arrepios, e os acontecimentos recentes, que envolviam os músculos do Gil, o corpo do Gil, as pernas do Gil e oh meu Deus… as mãos do Gil… Preocupada que alguém me estivesse a espiar os pensamentos menos próprios para aquela altura do dia, olhei à minha volta, com plena consciência que estava corada como um pimento maduro. Não estava ninguém inicialmente, até que um mono volume familiar estaciona junto ao passeio e de lá saem dois meninos gémeos com os seus quatro ou cinco anos de idade a correr em direcção a um portão. Os gritos da mãe, a adverti-los para não correrem chamou-me ainda mais a atenção, e quando dei por mim, estava a ajudar a senhora que, com uma bebé ao colo, tentava tirar os sacos das compras do carro, fechar o carro e não deixar que os seus filhotes corressem sem juízo pelo passeio, um atrás do outro.
- Oh, muito obrigado. – disse ela, visivelmente aliviada. – O meu marido não está cá, tive que levar a Joaninha ao médico e aqueles dois são movidos a energia nuclear.
- Está doente a menina? – perguntei, enquanto andávamos em direcção ao portão. A menina dormia serena nos braços da mãe. Mas na verdade estava demasiado rosada, possivelmente derivado à febre.
- Uma gastroenterite. A minha sorte – disse a mulher com um enorme sorriso e um brilho no olhar – é que ela tem um excelente pediatra. O Dr. Gil é qualquer coisa…
Quando a palavra Gil, suou nos meus ouvidos, confesso que nem assimilei, no entanto, depois de dar dois passos estaquei, e fiquei presa ao rosto angelical de bebe a imagina-lo a tratar da menina. Uma gastroenterite não é uma coisa levezinha, que passe com muito colinho e mimo. É perigoso, e se ele ajudou aquela pobre mãe, só podia ser boa pessoa.
Imediatamente, um enorme sorriso apoderou-se dos meus lábios e dei por mim a sorrir como uma tonta. A mãe dos pequenos gabou a qualidade do pediatra, mal sabendo ela que eu e ele tínhamos uma espécie de relação entre ambos.
Bom, tínhamos feito sexo, não é verdade? E ele tinha dito para nos vermos no dia seguinte, não foi? Bem, podia não ser uma relação assumida, mas podia vir a ser, certo? Certooooo.
- Muito obr…. Miguel, Gabriel? Venham para dentro. – os miúdos correram porta dentro, quase derrubando a mãe – Como estava a dizer, muito obrigado pela ajuda. E já sabe, se um dia for mamã, escolha o Dr. Gil para pediatra. Ele faz milagres por eles… e por nós…
Acenei à senhora e aos miúdos e regressei à minha rota, pensando com os meus botões que era desta. Se calhar tinha mesmo chegado a hora de assentar, ter uma família, filhos… e bem, nada melhor que um pediatra bonito e profissional, para pai dos meus filhos, não é verdade?
Não Eloisa, não é verdade. Conheces o gajo nem à quarenta e oito horas, o que houve entre vocês foi única e exclusivamente química sexual e tu aí a fantasiar com filhos e família e isso tudo? Acorda rapariga, ele pode não ser o que tu pensas que ele é…
Afastei os maus pensamentos dirigidos a mim através da minha consciência. Bolas, já tinha sofrido que chegasse no que a homens dizia respeito. Então o meu último fiasco era para apagar completamente da memória. Gil tinha aparecido como um anjo ruivo e sexy que me salvara da depressão eterna.
Sim, ia continuar a fantasiar com ele. Sim, quando o visse outra vez teríamos novamente sexo. E sim, queria ter filhos com ele. Montes de filhos. Podíamos até fazer como fazem os coelhos, se isso implicasse ser feliz, então aceitaria de bom grado uma carrada de filhos com cabelos ruivos e sorrisos malandros.

sábado, janeiro 19, 2013

As Trevas da Paixão - Gil #5

Gil ajudou-me a levantar do chão. Sim, só com ajuda as minhas pernas teriam força para impulsionarem o resto do corpo a ergue-se do chão.
Mas o que é que eu fui fazer…
                Gil beijou-me na testa e acariciou-me o rosto. Olhou-me com um olhar que fazia derreter cubos de gelo e voltou a beijar-me na ponta do nariz, para depois me voltar as costas e começar a fazer o que lá tínhamos ido fazer de facto.
Enquanto isso, enquanto ele se vestia, eu esbofeteava-me com força mentalmente.
Mas o que é que eu fui fazer…
                Bom, de que é que me adiantava chorar o leite derramado? O rapaz era bonito, atencioso, e o sexo! Era de fazer saltar os olhos das órbitas! Sim, tinha acontecido e ponto final. Não ia continuar a sentir-me mal por ter feito sexo com um gajo mesmo bom no chão do vestiário do departamento pediátrico do hospital local. Não, claro que não.
Ia atirar antes uma corda ao pescoço e ia-me suicidar mais logo ao final da tarde.
O. Meu. Deus,estava a ficar apanhada como a minha querida amiga Diana. Ela sim teria tido a coragem para fazer uma maluquice destas, não eu. E no entanto…
Desviei o olha para o chão e um intenso calor invadiu-me o rosto. Já não me sentia triste, nem usada, nem desprezada nem nenhum desses estados depressivos que me tinha vindo a destruir por dentro desde o verdadeiro espectáculo em Lisboa semanas antes.  Agora sentia-me feliz, viva, desejada, sexy e com vontade de…
                - Estou pronto – disse Gil, ajustando a mochila ao ombro – Vamos?
Sim, vamos embora e vamos rápido, antes que te atire ao chão e recomecemos tudo outra vez.
Sim, definitivamente a doença de Di começava agora a manifestar a sua presença. E sabem que mais? Talvez fosse essa a dica, talvez se começasse a fazer tudo na base do impulso deixasse de sofrer porque se arriscasse não criava expectativas, e se não temos expectativas não sofremos desilusões. Certo?
Gil guiou-me pelo corredor, até às portas metalizadas do elevador. Esperamos uns segundos e quando as portas se abriram, fomos brindados pelos olhos roxos de raiva de Matilde que me fuzilou se sequer tentar disfarçar. Gil sorriu-lhe e, com a mão direita no fundo das minhas costas cedeu-me passagem no elevador. Quando as portas se fecharam revirei os olhos e suspirei pesadamente. Matilde era uma porreira. Sim, era, porque era óbvio que gostava do jovem pediatra e nunca mais me dirigiria um sorriso verdadeiro. Mal ela sabia o que tinha acontecido, muito provavelmente, no mesmo sítio onde ela trocava de roupa…
- Não fiques assim – Gil levantou a mãe e roçou-me o alto da bochecha – Ela é uma miúda porreira, vai acabar por compreender.
Eu fiquei atónita a olhar para ele. Seria possível que a criatura que eu tinha diante dos meus olhos, sexo masculino, tivesse a sensibilidade de ler nas entre linhas? Ou era isso ou… conseguia ler mentes.
- Consegues ler a minha mente? – perguntei divertida.
- Não. Mas quem me dera poder.
Okay, era mesmo a primeira hipótese, tinha acabado de encontrar um espécime masculino com a rara capacidade de ler nas entre linhas um ser do sexo contrário. Uau. Fiquei chocada.       
 Sem que eu pudesse desenvolver mais, Gil encostou-se a mim e com delicadeza beijou-me os lábios, finalizando com um roçar de ponta do nariz que dava cabo de todas as minhas defesas.
- És uma mulher muito interessante, Eloisa. Bonita. Atraente. – disse ele, arrastando ligeiramente a parte final da palavra – Mas algo nos teus olhos não bate certo. E eu sei que não tem que ver com a Matilde.
Bom, acho que vou ter que considerar a hipótese número dois, ele era mesmo especial. E de certeza que lia mentes.
Claro Eloisa, e o pai natal existe mesmo…
                -Digamos apenas que os meus últimos meses não tem sido grande coisa.
                - Sei que ainda mal nos conhecemos, mas no que precisares, estou aqui. – disse ele com um fogo no olhar e uma intensidade que me fez dar um passo atrás, esbarrando-me na parede do elevador.
Depois, como que adivinha-se que as portas se abririam naquele segundo, beijou-me os nós dos dedos, deu-me a mão e conduziu-me pelo átrio principal do hospital, acenando e cumprimentando os seguranças e outros colegas de trabalho por onde íamos passando.
Ele não voltou a insistir no assunto do meu passado e eu agradeci porque tudo o que não queria, era voltar a lembrar-me dos S.S. sim, no que a eles dois dissesse respeito eu passava a sofrer de uma doença relacionada com memória a curto prazo. Tipo Dóris[1], agora lembro-me, agora já não. Ia fazer como se eles nunca, em momento algum se tivessem cruzado no meu caminho.
Gil conduziu-me até ao seu carro. Um bonito e moderno Megane Sport Tourer, preto. Depois de devidamente acomodada no banco do passageiro, Gil mencionou que estava a morrer de fome e se eu o acompanhava num almoço e depois sim, tomaríamos o nosso tão esperado café.
Acabamos por comer num restaurantezinho simpático, no centro de Évora. Numa descontracção tão grande, como se o que tivesse acabado de acontecer, no chão do vestiário dos enfermeiros não tivesse sido nada de anormal.
Depois fomos tomar café a uma esplanada do centro histórico.



[1] Personagem do filme ‘À procura do Nemo’.