quinta-feira, fevereiro 26, 2015

Pesadelo Na Mansão

Aquele maldito som irritante, som irritante simplesmente não cessa, viro-me para a esquerda estendendo a mão e bato de forma violenta sobre o meu despertador, este cai quebrando o silêncio sepulcral do quarto, mas o som continua. Irritada levanto-me e olho em volta sem ver nada, estico-me sobre a cama para acender o candeeiro e vejo a luz do meu telemóvel a acender e apagar.
-Raios! – pego no maldito aparelho clicado sobre o verde para atender a chamada. – Sim?
-Estava difícil ein. – solto um gemido ao ouvir o meu chefe do outro lado. – Preciso de ti, para ontem, se é que me entendes. – deito-me sobre a minha barriga e procuro o despertador. – Caramba Alex, são 5 da manha. Não pode esperar? – quase que choramingo ao olhar para as horas.
- Oh claro, pode sim, só liguei porque queria ouvir a tua voz. – o sarcasmo não passa despercebido no meu cérebro enublado do sono. – 5 minutos Melissa, e é bom que te despaches. – dito isto, desliga o telemóvel e eu fico a olhar feita tótó para o ecrã do meu. Pouco depois de sair do meu transe levanto-me corro até a casa de banho tropeçando umas quantas vezes, não, eu não tenho nenhum atraso motor com o qual possa tropeçar no próprio ar, mas experimentem trabalhar seguido 24 horas, estar a dormir maravilhosamente bem, umas miseras 4 horas e acordarem em sobressalto e terem 5  a minutos para se despachar?! Isto sem falar na parte em que o meu cérebro grita: Vai para a cama, está-se melhor lá, quentinho, fofinho. Por amor de Deus é melhor do que ir para a rua com esta chuva horrível lá fora! Entendem não é?
Por fim despachada, corro até a minha lata velha, e tento abrir a porta, sim ela por vezes encrava e não quer abrir.
- Oh vá-la, abre lá sua lata velha maldita, custa assim tanto abrires? – rosno furiosa para o carro, como se este entendesse patavina do que lhe digo. Estou seriamente a ficar preocupada com a minha saúde mental. – A porta abre com o meu esforço de a puxar e levo com a quina da porta no ombro. – Maldito sejas!!! Juro-te um dia, vou levar-te para abate, e vou ver amassarem-te e a ficares a parecer uma caixa de fósforos amarrotada. E acredita bebé, será melhor que ter um orgasmo. Muito melhor. – entro no carro enquanto ainda amaldiçoo o desgraçado, e ligo-o. – Nada que umas ameaças não resultem ein, vês? Até pegaste à primeira. – sorrio vitoriosa, e saio da garagem, clico no comando para que esta se feche e sigo caminho em direcção a redacção.
O caminho até lá ainda é um pouco longo, portanto decido fazer um ligeiro corta mato e ir por uma estrada de terra batida que se encontra mais adiante do lado direito, na verdade, porquê perder 30 minutos se posso fazê-lo em 15 minutos? Talvez porque terás de passar por aquela mansão abandonada e fantasmagórica
Sim Tico, tens razão. Mas…os meus 5 minutos já se foram. Para de pensar, repreendo-me enquanto me olho no espelho retrovisor.
-Aí estás tu de novo a falar contigo mesma, isso ainda te vai dar uma viagem a quatro paredes almofadas. – resmungo comigo mesma e olho para o conta quilómetros, maldito sejas podias ir mais depressa não é? Carrego no acelerador, mas o carro simplesmente começa a fazer uns sons estranhos para que pouco depois uma fumarada horrível saia pelo capô, o motor começa a engasgar e o carro pára ao fim de uns quantos solavancos. Furiosa, abro a porta e salto para a rua, batendo com a porta de maneira furiosa enquanto volto a praguejar, retiro o meu telemóvel do bolso das calças para ligar a Alex mas…. Sem rede.
-Oh fantástico, maravilhoso. Que mais poderia acontecer agora? – grito para o céu. – Começar a chover torrencialmente? Oh espera, noite de Halloween, uns fantasmas?
Super furiosa descarrego a minha raiva no carro, enchendo este de pontapés. Não é inteligente e apercebo-me disso segundos depois quando oiço um estalo e uma dor aguda sobe pelo meu tornozelo a cima fazendo com que desate numa choradeira sem fim. Apoiada no carro, que graças a deus parou de deitar fumo, observo o meu tornozelo cada vez mais inchado.
            - Fantástico, simplesmente maravilhoso, único. – digo entre lágrimas e olho para o lado, na esperança de que passe algum carro. Mas quem é que iria andar na rua quase as 5 da manha? Ninguém. 
Olho para o outro lado e vejo a maldita mansão abandonada, bem, pelo menos é esse o aspecto dela. Meio a coxear, meio arrastar o meu tornozelo, caminho até ao portão desta. Quem sabe, com um pouco de sorte pode ser apenas um dono desleixado que deixe esta parecer abandonada, mas ser habitada.
-EI!!! Alguém em casa? – grito sobre o vento com o rosto encostado as grades, e as mãos agarradas as grades do portão mas a excepção do vento, não se ouve nada. Quando me apoio mais no portar este guincha e começa abrir, o som das folhas secas debaixo dos meus pés, fazem um som horrível e um arrepio frio percorre as minhas costas.
-Oi??!! Alguém? Por favor? – a pequenos passinhos vou indo em direcção da mansão, pouco depois solto o maior grito humanamente possível. Aos meus pés passa um gato preto a bufar e todo eriçado que desaparece pelo portão atrás de mim. Levo uma mão ao peito, para tentar acalmar o meu coração e para que o desgraçado não me saia pela boca. Olho por entre as ervas altas que abanam ao ritmo do vento na esperança de que saia outro gato e assim já não me assuste. Mas nada, torno a caminhar em direcção a porta da mansão que esta entre aberta. Provavelmente a mansão é mesmo abandonada e devido a vandalização os portões estejam abertos. Sim, é isso. Penso para comigo mesma. Finalmente depois de ter subido os 5 degraus e mau estado. Empurro a porta e esta guincha, fazendo parecer uma mansão assombrada, com a luz da lua que se dignou aparecer, vejo que o salão de entrada é enorme, tudo cheio de folhas secas aos cantos da enorme escadaria. Para uma mansão abandonada, este ainda mantém quadros e candelabros e tudo mais. Poder-se-ia até dizer que limpando o pó e retirando as folhas, ficaria uma casa pronta habitar, bem isto sem falar dos vidros partidos, onde o vento entrar e faz bailar os velhos trapos que um dia deveriam ter sido belos cortinados. Caminho até a escada e subo os degraus. O meu pé volta a dar uma dor aguda e eu não intencionalmente grito de dor, caindo de joelhos nos degraus. Viro-me um pouco para me sentar e tentar tirar um dos ténis para que este não aperte tanto o meu pé inchado. Quando concluído, seguro-me ao corrimão das escadas para me levantar e fazer de apoio para subir as escadas, mas ao olhar para cima, uma vertigem atinge-me, e todos os pelinhos minúsculos das minhas costas congelam. Um grito de medo, horror e pânico sai do meu peito ao ponto de me fazer perder os sentidos.

***

Acordo pouco depois com algo macio em torno de mim, abro um olho para depois abrir o outro e sorrio feito tolinha. Afinal de contas foi apenas um sonho, muito assustador. Viro-me para o lado para agarrar o meu telemóvel e nada, franzo o sobrolho e a sensação de ser observada apodera-se de mim, de forma lenta viro a cabeça para o lado. E vejo…aqueles olhos de novo em mim, instintivamente levo as mãos a boca para abafar um grito, e aquela coisa afasta-se um pouco, como quem não quer assustar.
-Estou a ter o maior pesadelo de toda a minha maldita vida. – sussurro. E a coisa inclina a cabeça de lado. Ora vejamos, até seria um caso cómico, se aquelas dentuças não fosse do tamanho do meu polegar, se aquele pedaço de carne no nariz não estivesse a vista, ou até mesmo aqueles olhos enormes vermelhos, o vermelho bastante líquido que faz recordar o sangue… mas não é tudo, ele é grande, bastante grande, diria do tamanho de um cavalo. Se não passasse de um mito eu diria que era um cão do inferno.
- Olha engraçadinho. – digo com a voz mais calma que consigo, mas o medo está visível na minha voz, tornado ela num guichinho agudo. – Parabéns, tens uma mascara fantástica. – ele inclina a cabeça para o outro lado e os olhos dele parecem que me vêem a alma. – Mas, invasão de propriedade é crime, caso não saibas. – termino com toda a naturalidade que me é possível.
- Engraçado… - diz a criatura que está ao meu lado mas afastado, a voz é cavernosa, deveras assustadora e sinto até o meu fígado a encolher-se de medo. – Eu diria que acabaste de invadir o meu espaço. Portanto regendo-me pelas tuas regras de invasão de propriedade, serias tu… - e aponta com uma garra que faz lembrar uma faca de cerâmica.
-Oh céus…tu falas! Oh óbvio que falas, não passas de um mascarado idiota que tenta assustar as pessoas. – cruzo os braços danada. – Olha por acaso não tens um telemóvel? É que o meu carro avariou, e eu preciso imenso de chamar o reboque e o Alex, para me vir buscar.
Ele torna a olhar para mim e desta vez não se limita só a isso, caminha como um predador na minha direcção e eu encolho-me de medo sobre a cama.
- Achas mesmo que isto é uma máscara? Convido-te a tirá-la… - o rosto ou focinho, está colado a mim. Instintivamente as minhas mãos voam até ele, e tento puxar a mascara, mas a exceção de pelo que fica nos meus dedos, nada mais vem atrás. Lentamente baixo as minhas mãos, repousando elas no meu colo e olho para ele.
- Mas que raio… - salto da cama esquecendo o meu pé, e corro em direção a porta. Mas depressa sou apanhada, algo atinge as minhas costas e caio de cara no chão. – Deixa me ir, por favor.
- Lamento, mas não irás a lado nenhum. Ficarás aqui. – o bafo quente contra a minha orelha arrepia-me, viro a cara para o lado e olho para aqueles olhos vermelhos.
- O que és? – questiono a medo.
- Um amaldiçoado, e tu… a minha refeição. – se fosse possível abrir ainda mais os meus olhos eu teria aberto, com um punho fechado, desfiro um murro no Focinho o cão, este rosna furioso mas solta-me. Corro do quarto para as escadas, descendo estas de dois em dois. Mas estanco, os meus pés escorregam nas folhas e o meu traseiro bate no chão, arrancado um gemido de dor.
- O interessante disto, é que dás luta, mas ambos sabemos qual será o final da história.
- Não me digas, vai descobrir que te apaixonaste perdidamente por mim, e que vais querer ter cachorrinhos? – Sim, fiquei louca, mas a raiva consome-me e se esta coisa pensa que não darei luta, está enganado. Muito mesmo. Ele solta algo parecido a uma gargalhada, mas por momentos penso que se engasgou.
- Talvez apareça um guerreiro para te salvar? – ironiza a coisa.
- Nunca se sabe, a esperança é a ultima a morrer. – coloco-me de pé, com o meu tornozelo a protestar e corro para a direita, a dor cada vez mais forte faz-me chorar. As minhas costas ardem, como o inferno estivesse nelas. Torno a cair, quando algo bate nas minhas pernas e oiço um som horrível, olhando para baixo enquanto grito e grito de dor, vejo o osso da minha perna do lado de fora. Ele bateu-me com a garra das pernas, rasgando a pele e partindo-me a perna, a dor é insuportável, e nada mais do que gritar de dor e rastejar consigo fazer. Vejo o prazer no olhar daquele monstro quando caminha a passo decidido em minha direção. Depois de cheirar a minha perna, abre a boca e morde-me arrancando um pedaço desta. A dor, que eu pensei não ser possível, é ainda pior, subindo pela minha perna acima e alojando-se no meu estômago, com a perna boa, encolho o joelho e dou uma patada no focinho dele, furioso atira-se a mim. Seguro a única coisa que vejo ali perto. Um osso, provavelmente uma costela, e espeto-o num olho, ele rosna de raiva e com a pata dianteira atinge-me no peito, rasgando-me a pele, e sinto imediatamente o meu corpo molhado pelo meu sangue. Uma escuridão tenta abater-se sobre mim, mas recuso-me a deixar-me ir. Furiosa, magoada e revoltada, pego de novo no osso e espeto ele no outro olho do monstro, de seguida no pescoço, nunca dando tempo de nada. Ele solta um gemido e cai sobre mim, pouco depois explode deixando-me com pedaços de carne e pelo desde os pés a raiz do cabelo. Em choque e por fim aliviada, deixo-me ir e abraço de bom grado a escuridão que me rodeia. Deixando para trás o medo, as dores e o frio que o meu sangue deixa no meu corpo.

***

Algo queima a minha mão, grito e ao mesmo tempo assusto-me com aquela voz , eu já a ouvi antes, olho em volta, e tento levantar-me mas caio logo de seguida, olho em volta e ao ver o reflexo no vidro da porta da cozinha grito, grito até não poder mais. Aqueles olhos vermelhos observam-me, vermelhos e amarelos. O pelo negro banha todo o corpo daquele ser, mas falta-lhe a pata traseira, olho para baixo, para o que em tempos foram as minhas mãos… não passam de patas com garras assustadoras….
-Não!!!!!!!!!!!!!!!!


FIM


*Nádia Santos


1 comentários:

  1. Muito assustador, mas muito fixe. Adorei o conto, parabéns Nádia.

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